13/01/2013

- Hilário Dick

JUVENTUDE E ESPIRITUALIDADE

* Hilário Dick

1. Se sabemos o que é juventude, precisamos ter claro, igualmente, o que é “espiritualidade”. Assim como há “juventudes”, há “espiritualidades”. Se existe uma espiritualidade franciscana, marista, beneditina, carismática, etc. existiria também uma espiritualidade juvenil? A espiritualidade pode ser adulta, infantil, etc. isto é, ela pode ter idade? A espiritualidade vivida por um senhor de 65 anos, é a mesma que a espiritualidade vivida por um/a jovem de 23 anos? Ser “espiritual” tem muito a ver com liberdade e, também, com a biologia. Aquilo que constitui a verdadeira personalidade é a liberdade. Ninguém “é” livre. A liberdade está no agir para se libertar. Ninguém “é” espiritual. A espiritualidade é fruto do agir para ser espiritual. Pode-se comparar liberdade e espiritualidade porque as duas se encontram. Um “santo” é alguém que, na prática, viveu a liberdade. Jesus é Caminho porque viveu a liberdade e se libertava, sempre. Aquilo que constitui a verdadeira personalidade é a espiritualidade. Uma pessoa espiritual não é vazia. Sempre tem motivos inesgotáveis de viver o cotidiano.

Assim como se pode dizer que quem não namora, todos os dias, o sentido da vida, pode-se dizer, também, que quem não namora o seu interior, está longe de viver uma espiritualidade. Ser “espiritual” exige prática e tempo de acariciar o sonho que sonhamos. Aí está Deus, aí está o estudo, aí está Jesus, aí está o traje que uso, aí está tudo. Se formos preguiçosos, não fazendo o que deveríamos fazer, também seremos e somos tontos, achando que o sonho não acariciado não vá morrer.

Assim como podemos perguntar se a espiritualidade tem algo com a idade, podemos perguntar-nos, igualmente, se ela tem algo a ver com local (praia, montanha...), com espaço (igreja, santuários...). Por que as monjas e os monges vivem em espaços fechados? Algo a ver com espiritualidade? Certos espetáculos que levam um grande número de pessoas a viverem experiências “sagradas” têm algo a ver com espiritualidade? Quando a Pastoral Juvenil, na América Latina, diz que, para as juventudes, uma vida sem gestos nem celebrações não tem sentido nem dinamismo e que, por isso, a dimensão celebrativa é um elemento fundamental do estilo de vida que vai assumindo no processo de amadurecimento humano e cristão que realiza junto à juventude, estaria querendo afirmar algo específico para o mundo juvenil e não tanto para o mundo adulto? Evidente que toda a espiritualidade (no mundo cristão) se refere ao seguimento de Jesus. O seguimento de Jesus de um jovem, no entanto, teria algo específico, diferente do seguimento buscado por um adulto? Quando defendemos o aspecto comunitário, na vivência de nossa fé, o aspecto juvenil, nessa vivência, teria algo “especial”? Falar de juventude e espiritualidade sem considerar estes aspectos é navegar em águas erradas. Assim como não basta saber o que é espiritualidade no “genérico”, não basta olhar a pessoa humana somente no “genérico”. A espiritualidade tem algo a ver com idade.

2. Uma das características observáveis na Pós-Modernidade, com suas culturas e subculturas, é a necessidade e a busca de preencher um vazio que passou a tomar conta das pessoas. Imersos num sistema ligado à competência, à incerteza e à exclusão, também as/os jovens e adultos querem ser aceitas/os, reconhecidas/os,incluídas/os. Ainda mais porque a juventude é tempo do ser e do aparecer. Em parte, essa busca leva as pessoas à religião. Quem melhor atender a essa necessidade de preencher certos vazios e oferecer o que as pessoas buscam, terá maior sucesso. A juventude de hoje, nascida no final da década de 70, encontrou um mundo em mudanças, um tempo de pós-guerra fria e pós-descoberta da ecologia. Os jovens sofrem a influência do desemprego, dos avanços tecnológicos e, para eles, multiplicam-se igrejas e grupos de várias tradições religiosas com possibilidade de se fazer diferentes combinações.

O pós-modernismo tem como faceta importante outro aspecto: a volta ao sagrado, ao misticismo e ao transcendente. Esta “sedução do sagrado” pode ser lida de várias formas, mas queremos chamar a atenção para o que diz Frei Prudente Nery falando da Cristologia como Antropologia. Diz ele que “essa mútua imanência entre sagrado e profano, essa inseparabilidade entre valores religiosos e humanos, essa unidade inconfusa entre Deus e o homem [...] pensá-las e mantê-las continua sendo, ainda hoje, a tarefa mais ingente e urgente de uma teologia que se quer cristã. Pois esta é a coluna mestra do cristianismo: se Deus se fez homem é porque há em Deus algo de humano e se o homem pode ser assumido por Deus, em sua encarnação, é porque há, no homem, uma capacidade para Deus”. Dizer que há, no homem, uma capacidade para Deus é, talvez, dizer que há, no/a jovem, novidades a serem descobertas não somente porque é pessoa, mas porque é jovem.

Embora a busca do sagrado seja de todos, essa busca pode ter e tem um jeito de vestir-se de forma juvenil porque o sagrado também responde a necessidades específicas.

Nota: Texto inicial de autoria de Pe. Hilario Dick – Sobre Juventude e Espiritualidade.

 

1.Civilización del Amor – Tarea y Esperanza. CELAM, Bogotá, 1995, p.315

2. CALIMAN, Cleto (Org.) A sedução do sagrado. O fenômeno religioso na virada do Milênio.

Petrópolis: Vozes, 1998.